quarta-feira, 14 de abril de 2010

Veneza descascada



Ficamos devendo um post de Venezia, adiantado anteriormente quando falamos de transporte e Vaporetto. Faltou falar das construções, ou seja, a parte da cidade que fica parada, pelo menos bidimensionalmente, já que a cidade parece afundar, como veremos daqui a pouco.
Venezia é um amontoado de ruelas, campos, microcanais e canais, cuja planta lembra um peixe, localizado bem no centro de uma grande laguna que se comunica ao mar Adriático, na costa nordeste da Itália. O mais famoso dos canais, o Grande Canal ou Canalasso, corta o peixe ao meio e constitui-se numa sequência de palazzos descascados de dois, três e mais andares.




A pergunta é: por que não se restauram os edifícios? Falta dinheiro? A crise econômica pegou todo mundo e ninguém mais quer lançar mão daquela poupança guardada para a reforma da casa própria? Não mesmo, segundo o nosso guia (que não é Wikipedia, não dessa vez) informa que há normas rigorosas relativas à fachadas, impostas pelo IPHAN deles, em que somente estuque poroso pode ser utilizado para restaurações, uma vez que qualquer outro material não resistirá à umidade, à salinidade e aos ventos fortes da região, o que pode ser perigoso aos passantes. Como resultado, fachadas recém rebocadas começam a se desmanchar semanas após a aplicação.

Flores, roupas penduradas, edifícios levemente inclinados e o sol adicionam cor, luz e sombra e tudo fica com um ar charmosamente antigo, gasto e decadente. Por assim dizer, absolutamente bela. Haja foto!!!

Palazzos, cor, luz e sombra em Venezia

Além disso, tudo parece muito difícil para quem vive ali, o tempo parece outro e numa volta de vaporetto ao redor da cidade, mais ou menos 15 km, pode-se levar quase duas horas. Supermercado, vimos três, dois fora da cidade, em Lido e Murano. Como não existem carros, não se vai o shopping comprar meias, por exemplo. Sacos de arroz, caixas de leite, móveis, cachorro, tudo no vaporetto. Até caminhões andam de barco na cidade.


Barcos com mercadorias


Caminhões sobre água


Não obstante, boa parte da cidade parece estar em obras, inclusive a piazza de San Marco, onde é possível se observar um crime. A Bulgary simplesmente envelopou a famosa Ponte dei Sospiri, associando, com arrogância e gosto duvidoso, a sua marca a uma obra de arte. "Il cielo dei sospiri", tá bom, tomara que eles estejam pelo menos pagando bem a conta da reforma. O mesmo fez a Benetton com San Simeone Piccolo. Vamos ter que esperar a próxima viagem para ver tudo no contexto original.

Bulgary e Il cielo dei sospiri

San Simeone Piccolo

Por falar em obra de arte, o momento mais especial dos quatro dias em Venezia foi a visita à Peggy Guggenheim Collection (clique aqui para ver o site). Num palazzo inacabado, chamado Venier dei Leoni, uma senhora, comprando um quadro ao dia, guardou em meio a móveis simples, paredes brancas e cachorros, uma das maioes coleções de arte moderna do mundo. Antes de morrer doou tudo à fundação criada por um tal de Solomom R. Guggenheim, seu tio. Tipo, gente fina é outra coisa!

Peggy Guggenheim e dois dos seus babies, pelos canais de Venezia


Palazzo Venier dei Leoni desde o Vaporetto

Vimos Picasso, Braque, Dumchamp, Chagal, Klee, Léger, Picabia, Malevich, Dali, Magritte, Miró e o surrealismo de um tal de Max Ernest, que muito impressionou. Pra quem já viu o filme The Village de M. Night Shyamalan, é grande a semelhança entre os monstros produzidas por cada um.

The Antipope de Max Ernest, (1941–42) e The Village de M. Night Shyamalan (2004)

No jardim de esculturas, nos fundos do pallazo (em veneza o fundo está para a rua e a frente para o canal) foram guardadas suas cinzas, mesmo lugar onde costumava enterrar seus babies. Ao lado, Yoko Ono plantou uma árvore. Na oportunidade, marcamos um encontro com Dalí, em Paris, em dez dias.


Jardim de esculturas

De Yoko para Peggy, com carinho

La Naissance des désirs liquides, 1931–32


Nota: todas as obras da Peggy Guggenheim Collection, estão disponíveis para download em http://www.guggenheim-venice.it/inglese/collections/index.html

O que mais falar de Venezia? Que Murano é bonitinha e bem pertinho, com um monte lojinhas de vetri, mas cuidado, os chineses estão por toda parte, vendendo por vidro por lebre. Que o Lido é a praia deles, onde se pode tomar banho de sol de roupa e cachecol. Que a Ponte della Constituizone, de Calatrava, mesmo sem acessibilidade, é uma obra prima e que a basílica de São Marcos rivaliza com São Francisco de Assis de Ouro Preto ... Eita, dor de cotovelo!!

Murano: a pequena Venezia

Astros no Lido: e o festival é só em Setembro

Ponte della Constituizone

O fato é que a basílica, cujo piso afundou em alguns pontos, e a piazza de San Marco impressionam pelo dourado e pelos bordados, bem ao gosto da tradição estética veneziana que mistura a tradição clássica herdada e cultuada pelos italianos ao colorido do oriente médio, tendo sido por isso, chamadas por Napoleão de a sala de visitas da Europa.

Aller à la France!!!

Piazza de San Marco: um mar de gente, em obras

Detalhes da fachada e interior da Basílica

Palazzo Ducale e leão símbolo da cidade


Campanille


Um comentário:

  1. Ei meninos!!!

    este post está demais!!! Um monte de informação legal e interessante!! ( o lance do peixe não sabia...massa!!!)
    As fotos ficaram lindas!!! Tb não curti o lance da Bulgari e Benetton..Vamos fazer um abaixo-assinado contra?? Perguntas: os canais de Veneza tem cheiro ruim?? Viram algo sobre o sistema de esgotamento sanitário da city?
    Adorei a historia da Peggy (quero aqueles os oculos!!!) Gente fina (e rica..) é outra coisa...AHH!! E o Max Ernst es increible!!!! Preparem-se para vêlo no Pompidou!!! (com outros vários maravilhosos!!)
    BJos,

    Cláu

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